quinta-feira, 13 de maio de 2010

Preconceito: vítima e carrasco

"O melhor esconderijo, a maior escuridão, já não servem de abrigo, já não dão proteção..."
Bom, agora que comecei isto tenho que continuar, agora tem gente lendo o que escrevo aqui! :)
Fico muito feliz que gostem do que escrevo, que me apoiem e coloco meu total apoio à disposição de vocês. "Estamos no mesmo barco, e ele ainda flutua... ao sabor do acaso, apesar dos pesares, ao sabor do acaso, sob a mesma lua."
Hoje não vou escrever muito, vou apenas recomendar um texto que eu gostaria de ter escrito, mas infelizmente não tive a oportunidade de ver esta peça.

http://casadagabi.com/gorda-quanto-pesa-seu-preconceito/

Sempre falamos do preconceito que os outros tem por nós gordos e gordas, mas precisamos admitir que também temos preconceitos contra nós mesmos. Vindo para o trabalho agora a pouco vi uma mulher gorda usando um vestido curto de alcinhas, florido de costas nuas, achei tão ridículo, gordura saindo por todos os lados, eu nunca teria coragem de usar uma roupa daquelas. Mas ela parecia não saber que no mundo existem mulheres magras e as regras que dizem que apenas as magras podem vestir o que quiserem e que nós gordas temos que nos cobrir o máximo possível para não desagradar a visão de ninguém, mesmo debaixo do calor do nordeste. Preciso comprar uma burca porque tenho obesidade???

terça-feira, 11 de maio de 2010

Purgatório sobre rodas

Hoje, como quase todos os dias, estou numa correria desgraçada. Tenho 3 empregos, um pela manhã, outro à tarde e outro à noite, não tenho carro, utilizo o transporte coletivo.
Andar de ônibus já é um suplício para qualquer pessoa, mas em particular para os obesos é um inferno na terra. Primeiro é a dificuldade de passar na catraca, se vc é o primeiro a passar, atrasa a entrada de todo mundo e você já sente todos os olhares de condenação sobre você.
Mesmo quando há lugares vagos nos ônibus ainda passamos constrangimento, ver a expressão no rosto das pessoas que parecem estar rezando pra você não sentar ao lado delas é uma das piores sensações que já vivi. É como se eu fosse portadora dos vírus do ebola, gripe espanhola e H1N1 juntos!
Nos ônibus mais novos há um acento prioritário para obesos, mas ora, se as pessoas não respeitam sequer os acentos prioritários para idosos, imagine para os obesos! Se você pede licença a uma pessoa que não se enquadra nas situações de prioridade e que está ocupando este lugar, na melhor das hipóteses você vai ouvir:
- "Eu por acaso tenho culpa de você ser gorda?"
- "Chegue mais cedo no ponto ou faça uma dieta?"
- "Você comprou o lugar por acaso?"
- "Quem quer andar com conforto vai de táxi ou compra um carro!"
Este tipo de constrangimento acaba nos fazendo abrir mão do nosso direito.
Já os ônibus lotados são a purgação do pecado da gula! Todos te olham como se apenas você fosse culpado pela lotação. Na hora que alguém vai descer te empurram, te machucam, as pessoas acham que você é fofinho porque é feito de espuma e não sente dor.
Quando as pessoas vão nos olhar como seres humanos, que sofrem de um problema e não como animais que comem descontroladamente por pura gula e desleixo???

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Protelando...

Bem, mais um dia, ainda tentando encontrar um caminho, decidindo vagarosamente o que fazer da vida, sem a pressão do "só se vive uma vez". Eu sou o que se pode chamar de uma proteladora profissional, sempre deixo tudo pra depois com a desculpa de que ainda não é o momento, agora eu não tenho tempo, não é minha prioridade imediata e todos estes termos que só proteladores usam. Bom, se alguém por ventura não souber o que é protelar o Wikcionáio explica:

pro.te.lar

transitivo direto
1.deixar para depois a realização de (algo); adiar, retardar, postergar
protelar uma decisão

Então, eu vivo protelando as coisas, sempre fui do tipo que entrega o trabalho em cima da hora, mas sempre com muita eficiência, acho que só consigo trabalhar direito com a pressão do prazo quase acabando, nos últimos instantes é que me vem sempre o impulso criativo, é quando meu trabalho fica melhor.
Embora compreenda esta minha necessidade de pressão para me forçar a ser criativa eu não gosto de ser proteladora, pq eu sei q no último instante eu vou conseguir dar conta do trabalho, mas as outras pessoas não entendem muito bem este processo, nem confiam muito que uma coisa feita em cima da hora vá ter muita qualidade.
No trabalho minha mania de protelar nunca me prejudicou, apenas me deu alguns aborrecimentos com cobranças excessivas, mas na vida é bem diferente. Este costume de deixar tudo pra depois quando é aplicado a todos os aspectos da vida fica bem complicado, eu deixo absolutamente tudo pra fazer no último minuto, e quando é algo que eu sei que só vai prejudicar a mim eu acabo nem fazendo.
É assim com minha saúde, já cheguei a passar 5 anos sem ir ao médico ou ao dentista, este ano resolvi fazer um tratamento bucal, e após tanto tempo sem uma consulta odontológica descobri muitos problemas, mas como se diz o ditado "antes tarde do que nunca", e agora estou corrigindo este erro.
Espero em breve tomar esta iniciativa também para o restante de minha saúde, sei que preciso fazer exames de glicemia, colesterol e tantas outras coisas, como também preciso urgentemente ir a um nutricionista, mas ainda estou adiando estas atitudes, mesmo tendo a consciência da importância delas para tentar melhorar um pouco minha vida, talvez eu tenha tanto medo de enfrentar isto tudo, de me frustar mais uma vez abandonando o tratamento, de não conseguir resultado nehum... sei lá.
Há dois meses comecei a fazer musculação pela manhã, de segunda a sexta, mas ainda não estou fazendo o máximo para superar minha obesidade, estou sim me exercitando, mas não sigo uma dieta, e falto à academia às vezes por causa do trabalho e outras por simples preguiça, mesmo nos dias que vou acabo sempre me atrasando e tão logo o ponteiro do relógio se aproxime do meu horário de saída, largo os aparelhos e vou embora.
Não me sinto muito bem na academia, sou a única obesa a frequentar, sinto que todo mundo repara no que faço, ou melhor, no que não consigo fazer, sei que boa parte dessa sensação é paranóia minha, quem é obeso tem dessas paranóias, como quando passamos por alguém e ouvimos uma risada em seguida, pode ser que a pessoa esteja rindo de algo na conversa e nem tenha nos visto passar, mas na nossa cabeça a risada sempre é causada pela visão de nosso corpo desproporcional, do nosso jeito de andar, sempre cansaço e meio desengonçado, da roupa que marca ou que expõe nossa gordura.
Eu falo nós, mas nem tenho certeza de que outras pessoas que também sofrem de obesidade também passam por isso, eu vejo pessoas tão ou mais gordas do que eu que não tem tantas paranóias, pessoas que usam biquines e maiôs na praia sem sentir vergonha do corpo opulento, pessoas que dançam nas festas, que tem namorados, que se casam, que fazem tudo que eu acho que nunca vou conseguir fazer. Uma hora isso vai ter que acabar... mas quando???

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Na lanterna dos afogados

Tenho a sensação que escrever aqui é como jogar uma garrafa com um pedido de socorro no mar, ainda estou esperando que alguém venha me salvar de mim mesma. Sei que sou minha única ameaça e minha única salvação, mesmo assim não consigo me salvar sozinha. É difícil definir o estado de solidão que me encontro, tenho família, tenho amigos, tenho bons colegas de trabalho, mas falta algo, não consigo confiar plenamente em ninguém, e ao mesmo tempo sinto que sou tão insignificante pra todo mundo... é uma sensação angustiante, é como estar na lanterna dos afogados, no meio do oceano, agarrando-se a uma esperança mínima de sobrevivência, mas vendo a desolação do vazio do mar. Onde encontrar a salvação?

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Terapia - Sessão 2

Muita gente já me aconselhou a fazer análise, tudo bem que sou meio neurótica, que tenho crises de depressão homéricas, que nunca tive um relacionamento amoroso por conta da vergonha que tenho de ser gorda (e tbm pq ninguém nunca se interessou por mim, tbm pelo fato de ser gorda), mas enfim, a questão é que eu não acredito em análise.
Durante a faculdade dividi o quarto da república em que morava com uma estudante de psicologia, pessoa desagradável, com mania de ter uma interpretação para cada gesto e cada palavra dos outros, oras se nós não conseguimos entender nem a nós mesmos como podemos ter a pretenção de saber o que se passa no interior dos outros?
Minha experiência com este projeto de psicóloga me fez criar um preconceito contra estes profissionais, mas com o tempo, conheci outras pessoas que também cursam psicologia ou são psicólogos que tem respeito pela intimidade e sentimentos de cada um, mesmo assim ainda não acredito em análise.
Ora, vejamos, o que vem a ser uma sessão de terapia? uma pessoa cheia de problemas deitada num divã contanto suas lamúrias para outra pessoa igualmente problemática que às vezes presta atenção, às vezes finge prestar, e que no final vai dizer que só você tem as respostas para as suas dúvidas, traumas e problemas. Bom se no fim eu vou ter que resolver tudo sozinha, pra que eu vou pagar as sessões?
Resolvi fazer minha terapia aqui mesmo. Cada postagem será minha sessão, serei meu próprio analista (embora aceite uma segunda ou terceira opinião, se alguém um dia vier a ler isso aqui.), não sei se com isso vou conseguir ser uma pessoa mais em paz consigo mesma, mas sei que quero fazer isso agora, pode ser que eu desista amanhã, como já desisti de tantas outras coisas na vida, mas hoje me sinto bem por conseguir escrever isto.

terça-feira, 4 de maio de 2010

PADRÃO

A palavra "PADRÃO", tem diversos usos, na administração, nas artes, nas ciências, na moda, no comportamento... A estampa de um tecido que se repete é um padrão, as características de um determinado produto constituem seu padrão de qualidade.
Numa pesquisa rápida na internet encontramos a seguinte definição do termo "PADRÃO":
1. Modelo a ser seguido; exemplo a ser copiado.
2. Regras de execussão de um produto.
3. Classificação; grau; gabarito.
4. Modelo oficial de medida.
5. Estampas de um tecido.

A primeira definição é a que se usa quando fala-se em "Padrão de Beleza", todos sabemos que este termo determina as características que uma pessoa deve ter para ser considerada bonita, o que hoje em dia significa para a mulher a junção dos elementos: magreza, de porte atlético (músculos bem definidos pela prática de atividade física regular), pele lisa (sem manchas, pelos ou acne), cabelos impecavelmente bem cuidados, dentes alinhados e branquíssimos. Estas são algumas características mais gerais que não variam de país para país como algumas outras que são ditas como preferência nacional como o caso do bum bum arredondado e opulento para os brasileiros e dos seios fartos para os americanos.
Quem não possui estas características é considerado "fora dos padrões" ou simplesmente feia. Ser feia na sociedade das aparências é uma anomalia, algo digno de repulsa. Entre todos os tipos de feiura que se pode ter, ser gorda é o mais grave. Eu sou portadora desta feiura. Este texto longo e chato é uma tentativa de explicar que este espaço foi criado como um desabafo para uma pessoa que pesa mais de 100 kg e que está cansada deste mundo em que a beleza não pode ultrapassar os 55 kg.
A palavra PADRÃO sempre foi um monstro me perseguindo, sempre foi meu maior inimigo nos meus poemas épicos, e ela é o primeiro demônio que quero exorcisar aqui.
PADRÃO ->MODELO -> PARADIGMA -> NORMA -> NORMALIDADE
Sei que este vai continuar sendo o esquema da sociedade, não pretendo mudá-lo, não sou uma anarquista, mas tenho direito de dizer que isto é uma grande idiotisse que só a imbecil humanidade poderia ter criado.
Será que alguém vai ler isto?
Normalmente escrevemos para que os outros leiam né? Ficaria muito feliz se isso acontecesse, mas se não acontecer, continuarei escrevendo assim mesmo. Esta é a minha catarse.